A vida nos blocos brutalistas de Nova Belgrado pela fotógrafa Lola Paprocka

Lola Paprocka sempre teve um soft spot por “tudo o que é betão”. A fotógrafa polaca cresceu ladeada pelos blocos habitacionais de traço industrial da cidade de Poznan, a oeste da capital Varsóvia, e desenvolveu uma “obsessão pelo brutalismo” arquitectónico da Europa comunista. Imbuída de um sentimento de nostalgia, a artista residente em Londres criou um projecto visual que retrata a relação entre a arquitectura e as comunidades que habitam nos aglomerados residenciais monocromáticos do leste europeu. O livro Blokvi: Novi Beograd, publicado pela Palm* Studios, é a primeira monografia da série e explora a paisagem pós-Guerra Fria de Nova Belgrado, na Sérvia.

“É impossível não sermos influenciados pelo passado e pelo que nos rodeia”, disse Paprocka numa troca de emails com o Siso. “Passei a minha adolescência num destes blokovi antes de me mudar para Londres, por isso este é um projecto muito pessoal.”

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Durante uma abafada semana de Verão em 2015, Paproka registou com uma câmara médio formato Mamiya RZ67 a vida tal como esta acontece diariamente em Nova Belgrado. O incentivo para que a cidade da antiga Jugoslávia fosse o sujeito primário de Blokovi foi de Mima Bulj, curadora nativa de Belgrado e amiga de longa data de Paprocka. Ambas partilham um passado escrito sob contextos e experiências urbanas similares, pelo que Bulj sugeriu que Blokovi apresentasse esse vínculo através do olhar de “forasteiros nostálgicos”. O resultado é uma colecção de imagens de arquitecturas grandiosas e retratos espontâneos dos residentes dos blocos. “Sempre nos sentimos de certo modo presas entre o Leste e o ocidente”, afirma Paprocka. “Identificámos semelhanças entre as mentalidades polaca e sérvia e foi a compreensão mútua, o reconhecimento e a nostalgia que nos uniram neste projecto.”

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A população de Belgrado cresceu dramaticamente em finais de 1940, impulsionada por um baby boom e pelas deslocações humanas pós-Grande Guerra. Em paralelo a estas movimentações, foram-se erguendo torres de betão nos bairros da zona sul de Belgrado e o município, então baptizado Nova Belgrado, tornou-se conhecido pela alcunha blokovi, ou “blocos”. Hoje, os blokovi abrigam uma borbulhante diversidade cultural, uma saudável mistura de gerações e uma comunidade de artistas locais que vive, trabalha e expõe regularmente nos blocos.

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Apesar de residir em Londres há 13 anos, Paprocka começou a documentar os blocos residenciais da Polónia há cerca de seis anos. Resgatando uma máquina fotográfica russa que pertencia à mãe, a artista capturou os laços íntimos entre a arquitectura brutalista e as comunidades locais, construído assim o seu próprio estilo enquanto fotógrafa. “O meu principal interesse reside na arquitectura, natureza e, desde há dois anos, em retratos”, explica. “Ando sempre com uma point-n’-shoot comigo, mas só há quatro anos é que passei a levar a fotografia mais a sério. “Agora que completei o projecto Blokovi, quero explorar mais o lado documental da fotografia.”

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O próximo território em foco na série será a Polónia, o que permite a Paprocka reconectar com as raízes e explorar as mudanças no país a que chama “casa”. “A Polónia transformou-se imenso durante os anos em que vivi em Londres e sinto a necessidade de voltar a conhecê-la, como se estivesse a reunir de novo com um velho amigo”, reflecte. “Tenho uma grande vontade de explorar o meu país e de expandir a série a outros ‘blocos’ da Europa de leste.”

 

Blokovi: Novi Beograd está disponível na Palm* Studios. Sigam o trabalho de Lola Paprocka através do site oficial dos estúdios.

Fotografia: Lola Paprocka