Atlântico Dourado: uma aventura por ondas e ilhas remotas com Blake Parker

“Em Outubro, eu e o meu amigo Warrick Murphy embarcámos numa viagem de sete dias pelas Ilhas Faroé na esperança de surfarmos umas ondas solitárias. O arquipélago é um território dinamarquês situado no centro de um triângulo invisível entre a Islândia, Escócia e Dinamarca. É uma região temperamental, rica em paisagens dramáticas e pessoas incrivelmente simpáticas. A linha de costa é desenhada por falésias que se elevam sobre o oceano e os spots surfáveis escondem-se em enseadas profundas e amplamente expostas às ondulações do Atlântico Norte que tanto apreciamos.

As sessões não foram memoráveis, mas ficámos contentes por termos conseguido surfar na ilha principal, Streymoy, três ou quatro vezes durante a semana. Encontrámos ondas a rondar o metro de altura num wedge situado nas profundezas de uma baía. Foi um milagre que a ondulação conseguisse lá chegar. Mais tarde, descobrimos um par de ondas acessíveis por mota de água e ainda umas slabs mortíferas que não eram tão convidativas. Ao longo de toda a jornada, nunca avistámos uma única alma a remar para o outside, nem tão pouco cruzámos caminho pelas ilhas com qualquer surfista local. Os breaks estavam por nossa conta.

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Quando as condições do mar não sem alinhavam com os ventos, partíamos à exploração das arrepiantes paisagens das Faroé, com as suas quedas de água e vales ladeados por uma luz dourada que se espalhava pelo arquipélago durante a tarde. De noite ficávamos atentos aos humores dos céus à espera das famosas auroras polares. A primeira vez que as vimos foi uma noite em que acampámos num famoso campo de futebol tornado espaço de campismo na pequena vila de Eiði. A temperatura estava extremamente baixa, a Lua cheia e o radar assinalava uma pequena janela de tempo em que as nuvens se evaporavam. Por volta das 11 da noite, saí da tenda para ler um livro e manter um olho no céu à espera daquele brilho verde-baço. Uma hora mais tarde, pareceu-me vislumbrar uma pálida nuvem colorida a estender-se pelo manto escuro pontilhado por estrelas. Pensei que estava a tripar. Fui buscar a câmara, comecei a fotografar e quando olhei para as imagens no pequeno ecrã confirmei a presença de um traço verde claro no céu. A reação imediata foi gritar que nem uma miúda. De seguida, partimos rumo à baía, trepando pelas rochas, em busca de um melhor posto de observação. Durante as duas horas seguintes, as auroras foram absorvendo cada vez mais luz, tornando-se limpidamente visíveis a olho nu. Foi uma experiência inacreditável.

Os faroenses que conhecemos ao longo da viagem eram calorosos, acolhedores e intrigados sobre o que estávamos por ali a fazer com pranchas de bodyboard debaixo do braço. Houve quem nos convidasse a tomar café e a comer em suas casas e a pernoitar em espaços de campismo privados. São pessoas realmente únicas.

A tradição faroense da captura de baleias é provavelmente o símbolo cultural mais conhecido no exterior do arquipélago. Mas quando visitamos a região, conversamos com as pessoas e observamos de perto a crueza natural em redor, compreendemos a necessidade da população em caçar para aguentarem o inverno rigoroso. É um ritual com muitos, muitos anos do qual que não abdicam, caçando apenas o indispensável. Ainda assim, continua a ser um tema sensível aos olhos das pessoas de fora.

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Este tipo de surf trips a regiões menos propensas ondulações épicas é extremamente dependente dos elementos mistério e meteorologia. Todos os eventos e elementos da jornada são importantes e a quantidade de trabalho e de planeamento pré-viagem que empreendes em busca de uma surfada diferente pode tornar a aventura bastante mais recompensadora. Partilhar a experiência com poucos amigos é também muito importante. É fantástico encontrar um spot desconhecido e acertar na combinação swell-vento-maré; torna-se mais marcante do que apanhar diariamente umas ondas divertidas no nosso local de sempre.

Acredito que os surfistas de hoje procuram fugir de outros surfistas. Querem ter uma experiência única. De certo modo, os fotógrafos que os acompanham também os atraem para lugares mais obscuros para que possam criar retratos mais dramáticos e entusiasmantes. Há dois anos que vivo e trabalho no Reino Unido e não penso ficar para sempre na Europa. Por isso, também procuro afastar-me daqueles lugares cliché para surfar, optando por destinos inesperados. São experiências como a que vivi nas Ilhas Faroé que vou realmente apreciar quando a minha aventura no Hemisfério Norte terminar.”

 

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Fotografia: Blake Parker

Baseado numa entrevista via email.

*Artigo originalmente publicado em Freedom Issue by Vert.