Branko: “Tenho uma ideia clara de onde quero chegar”

Fotografias: Ricardo Miguel Vieira (topo) e João Retorta

A selva urbana que vibra à porta do Ace Hotel, moderno alojamento de fachada em tijolo negro no coração de Shoreditch, disfarça a noite fria e húmida de Novembro que se abate sobre a hipsterville de Londres. O cenário é frenético. Os neóns dos bares e off licenses reflectem no asfalto ensopado e as filas de automóveis serpenteiam a avenida. Há muita gente a cruzar os passeios cinzentos, garrafa de cerveja na mão, cigarro entre os dedos, a partilhar gargalhadas e desabafos em grupo. Outros, imprevisivelmente, como é traço de personalidade de qualquer grande cidade, ensaiam umas danças. À frente do terraço onde me encontro, um grupo de três rapazes de fato-treino negro batalha uns passos perceptivelmente de kuduro enquanto, num sotaque quente que tão bem reconhecemos nas ruas de Lisboa, gritam em monossilábico êh… êh… êh... No seu abstraído entusiasmo, os rapazes atraem os olhares e os sorrisos de quem aguarda cá fora o momento em que Branko vai exibir o seu disco de estreia na obscura cave do hotel.

Há muito de Atlas em todo este momento. O disco de formato digital de 10 faixas é uma construção artística que vive de ocorrências inesperadas, observações do mundo em redor e reflexões e explorações culturais de universos dispersos entre si. Parte em busca daquilo que ainda não foi visto ou escutado, um traço característico do corpo de trabalho de Branko. “Sinceramente, a única coisa que penso é que é sempre importante estares a fazer uma coisa que seja original e que essa originalidade é mais fácil de ser reconhecida quando não te atiras para um mar onde já está toda a gente a tentar sobreviver e tu és mais um”, desabafa, sentado numa mesa de madeira no lounge do Ace Hotel, lata de Red Stripe em punho, funk da velha escola a gritar nos speakers. “Essa foi sempre a diferença: tentar criar alguma coisa que gerasse uma reacção, marcasse a diferença, que as pessoas nunca tivessem escutado.”



O mapa sonoro de Atlas centra-se na borbulhante cena global dance music que o próprio João Barbosa, nome pelo qual responde, cunhou ao lado dos Buraka Som Sistema. O álbum é por isso um mosaico de referências que se fundem sagazmente e nos transportam numa viagem intensa e polirítmica. É também transfronteiriço por concepção, fruto de múltiplas colaborações em estúdios espalhados por uma mão cheia de metrópoles mundiais – Amesterdão, São Paulo, Cidade do Cabo, Nova Iorque e Lisboa. Uma miscelânea de registos sonoros que entretanto já passou pelas pistas de dança do Brasil, Estados Unidos e Colômbia.

“A tour tem sido engraçada”, conta João Barbosa, que apresenta um zipper hoodie tinto, t-shirt preta com o “E” tridimensional da casa Enchufada no peito e Nike nos pés. “Musicalmente estou a tentar fazer um set que leve um bocado a todas as cidades onde estive a gravar o disco e isso não deve ser a coisa mais fácil de digerir por parte do público de um clube. Então tenho estado a observar reacções diferentes, a alimentar-me disso e a alterar um pouco os sets. Mas, acima de tudo, está a ser divertido tocar a música e pôr o nome aí.”


 


É difícil imaginar que João Barbosa ainda precise “pôr o nome aí”. Co-fundador da Enchufada e dos Buraka Som Sistema, o produtor é uma das mais importantes figuras do universo musical lusófono deste milénio. A arte que constrói já se deu a escutar em praticamente todos os continentes e tem no currículo uma série de colaborações com artistas que alcance planetário – M.I.A, Santigold, Zebra Katz… Em 2012, altura em que começa a dar nas vistas com os primeiros lançamentos de assinatura “Branko”, a Monocle, publicação britânica que versa política, negócios e artes, colocou-o mesmo na lista das 20 personalidades mais inspiradoras que falam português – menção atribuída num período em que largara as explorações enquanto “Lil’ John” e “J-Wow”. “Como ‘Branko’ consigo visualizar onde quero chegar, que era uma coisa que procurava, daí que tenha estado em tantos projectos”, confessa, aludindo à identidade pessoal e criativa que finalmente alcançou. “1-UIK Project, Enchufada, Buraka… Foram sempre projectos com mais pessoas, com outros objectivos. Agora tenho uma ideia clara de onde quero chegar, seja musicalmente ou em termos pessoais, e isso é fixe.”

Menos de uma hora depois de chegarmos ao Ace Hotel, descemos um par de andares rumo à cave onde Branko vai assumir a cabine e projectar os jogos harmónicos de Atlas. O DJ e produtor proveniente da Amadora é o cabeça-de-cartaz da noite de que ainda fazem parte MM, Neana, Stryker e Helikonia. À semelhança de tantos outros bares britânicos, o espaço do evento é um manto breu, vislumbrando-se apenas algumas luzes no bar, localizado nas traseiras da sala, e nos rostos dos DJs. À hora marcada, Branko dá início a um set explora as Caraíbas, o mundo latino e África – Nigga Fox, MC Carol, DJ Dotorado e, claro, as faixas de Atlas estão na playlist. O público, composto por muitos portugueses, corresponde ao desafio e entrega o corpo aos ritmos quentes, enquanto Branko, também ele, dança e vibra com o ambiente.


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“Quanto mais diferente, melhor, isso vem da forma como cresci. Por isso é que ainda vivo em Lisboa, não consigo ser assim em mais sítio nenhum do mundo. Eu falo a língua daquela cidade, falo aquela linguagem e a minha visão vem da forma de existir daquela cidade.”


João Barbosa chegou ao Ace Hotel acompanhado de um pequeno grupo de amigos, a maioria artistas que foi conhecendo ao longo das suas jornadas pelo estrangeiro e com quem se reconecta sempre que possível. Hannah Yadi, cantora britânica que foi dos primeiros artistas a assinar pela Enchufada, é uma delas. “Nós conhecemo-nos em Londres através de um amigo sueco”, conta Yadi. “Desde então o João tem-me ajudado a explorar o meu som. Em Londres há muita gente de diferentes partes do mundo e conhecer o João permitiu-me mergulhar um pouco mais na world scene of music, até porque sempre procurei beats e ritmos de todo o lado, por exemplo do Norte de África.”

A partir do momento em que integrou a casa Enchufada, Yadi passou a partilhar regularmente o estúdio com João Barbosa e até os Buraka Som Sistema. A primeira participação ao lado de Branko está registada na mixtape Drums, Slums & Hums e a mais recente no EP Control, de 2015. “O que acho realmente inspirador no João é a forma como ele trabalha mesmo mantendo múltiplos projectos”, confessa. “Sou realmente atraída para isso porque me permitiu perceber que não tenho de fazer apenas uma coisa, que posso fazer parte de muitos mais projectos. Além disso, eu acho que ele aprende sempre alguma coisa com todas as pessoas que trabalho e essa persistente evolução é realmente cativante.”



Outro dos amigos de Branko presentes na celebração de Atlas é realizador João Retorta. Proveniente de Carcavelos, e actualmente a residir em Londres, Retorta assinou a série Atlas Unfolded que estreou na Red Bull Music Academy em vésperas da edição do disco. “O João dá sempre muitos inputs sobre os trabalhos que fazemos”, conta o realizador que primeiro trabalhou com Branko aquando da gravação do videoclipe de “Going Hard” com Dominique Young. “Ele sabe a linha que quer seguir e ao mesmo tempo acredita e tem confiança no que estou a fazer. Nas gravações de Atlas Unfolded, aquilo podia ir por dois caminhos: um muito técnico, e só quem está dentro da música é que curte daquilo; ou então um caminho humano, em que toda a gente se vai relacionar mais ou menos com as coisas. Ao fim do dia são relações entre pessoas e em estúdio era tudo muito fluido. Obviamente que o pessoal sabia que tinha um dia para fazer uma música, não tinham tempo indefinido, mas foi tudo sempre muito orgânico. Ele começava por mostrar uns beats, os artistas escolhiam o que curtiam e daí o projecto foi crescendo. Então, eu estava à procura de mostrar um pouco a técnica e a criação por detrás do álbum, dando também espaço à relação entre os participantes.”

No final do espectáculo, Branko, encaminhando-se para o bar, foi repetidas vezes abordado, por portugueses que, em espírito saudosista, lhe dirigiram umas palavras de agradecimento pela visita a Londres. “Hoje foi fixe, estava uma vibe engraçada, um club de pessoas que queriam ouvir música diferente, ninguém me veio pedir house e isso é sempre uma vitória”, descreve. E numa última troca de palavras, no iluminado corredor de acesso à sala, João Barbosa relembra as origens no momento de destacar a importância de mais uma paragem na tour de Atlas. “Hoje em dia, chegar aqui e ter um pequeno grupo de pessoas com vontade de ouvir música é para mim super gratificante. Sabes, fico meio frustrado quando me apercebo que a maioria do entretenimento vem dos mesmos sítio no mundo: L.A., Nova Iorque, Londres… Para mim é uma enorme vitória conseguir estar aqui a fazer uma cena de um sítio que não é suposto acontecer, é isso que me interessa, essa é a minha luta. Quanto mais diferente, melhor, isso vem da forma como cresci. Por isso é que ainda vivo em Lisboa, não consigo ser assim em mais sítio nenhum do mundo. Eu falo a língua daquela cidade, falo aquela linguagem e a minha visão vem da forma de existir daquela cidade.”

Atlas está disponível no iTunes e BandcampSigam o trabalho de Branko no Soundcloud, Bandcamp da Enchufada e Facebook.

*Artigo originalmente publicado em Rimas e Batidas.