Darius Devas e a atracção dos bodyboarders pelas ondas na série Ocean Talk

A avó de Darius Devas, o realizador australiano por detrás da produtora Being Here, completou um século de vida este ano. No sangue dela corre a irreverência dos irlandeses e Devas, 30 anos, viajou há pouco mais de um mês até terras celtas em busca do seus antepassados. “Queria vincular-me à minha herança. Foi realmente fantástico aprender mais sobre a minha família, interagir com a cultura e, claro, surfar.”

Esta não é a primeira vez que Devas parte em busca das suas raízes ancestrais. Em 2011 lançou o premiado (pelo SXSW) documentário Goa Hippy Tribe, que recolhe a história dos hippies da região oeste da Índia, grupo que nasceu na década de 1970 e no qual se incluíam os seus pais. Devas ainda chegou a viver naquela antiga colónia portuguesa até aos quatro anos, antes de se mudar com a família para Byron Bay, no leste australiano. Foi aí, junto à costa, que Devas cresceu e, aos sete, começou a deslizar as primeiras ondas na companhia de um pequeno grupo de bodyboarders da região. Mais tarde, o passatempo evoluiu para paixão, dentro e fora de água. Quando não estava a surfar, caminhava de câmara em punho e registava aventuras na companhia dos amigos. “Tornei-me um cinematógrafo através do bodyboard. Ensinou-me o básico da arte e permitiu-me aprender de forma auto-didacta, em vez de ter de estudar.”

Os passos de Darius Devas ao longo da juventude revelam que é um profundo curioso sobre a semente dos seus interesses, que não se geram no seu íntimo de um momento para o outro. Representam, sim, uma característica amadurecida ao longo dos anos e que por si explica a abordagem distanciada, fora da caixa, que tem nas suas produções ligadas ao bodyboard. É o caso da recente série Ocean Talk, que apresenta alguns dos bodyboarders mais reverenciados do globo na sua dimensão humana, introspectiva, através de conversas informais e reflexivas sobre as suas vidas. “Quero partilhar as experiências que adquirimos por sermos amantes do oceano. Ao mesmo tempo, quero revelar a vida destas pessoas para lá do oceano, criar alguma profundidade. O mais importante é partilhar estórias inspiradoras.”


PLAYLIST DE DARIUS DEVAS

Against the Grain, de Mickey Smith
Superstars 2, de Andy Lawrence
Fu Man Chu, de Scott Carter


A ideia de Ocean Talk partiu da amizade de Devas, que hoje vive em Melbourne, com o bodyboarder e rockstar Winston McCall, da banda punk rock Parkway Drive. “Eu e o Caleb [Graham, editor da série] temos-lhe [McCall] um grande respeito e queríamos fazer algo com ele. Daí para a frente começámos a pensar que há muitos mais bodyboarders com interessantes estórias para contar.” Entretanto, já foram lançados três episódios online. Para além de McCall, há um auto-retrato do próprio Devas e um olhar sobre a vida familiar de Dave Winchester.

O ponto-de-vista fresco de Darius Devas advém do seu desligamento do mundo mais estrutural, competitivo e comercial do bodyboard. Admite que não segue as incidências do desporto e que apenas vê uns quantos vídeos online para manter os níveis de motivação elevados. “Apenas surfo com as pessoas que me rodeiam e faço as minhas coisas, o que tenho a fazer.” Mas não será por se distanciar dos movimentos no mundo do bodyboard que a sua visão fica limitada ou desfocada. Pelo contrário: é o bodyboard enquanto forma de estar na vida que lhe preenche a retina de novas perspectivas. E assim se dá o regresso às origens, ao mar, depois de um afastamento de vários anos. “Adoro o sentido de aventura que os bodyboarders têm, de partirem em busca de novas ondas, que invariavelmente os conduz a fantásticos recantos do mundo que a maioria das pessoas não tem oportunidade de conhecer.”

No universo bodyboarder, Devas despertou a atenção da comunidade com a curta experimental Within, que resgata a importância do mar e do bodyboard na sua vida, principalmente após o suicídio de um companheiro de surfadas, há dez anos atrás. Fora de água, já produziu documentários sobre viagens pelo mundo, artistas que inspiram e influenciam cidades e a roadtrip de um músico – Jordie Lane – entre Nova Iorque e Los Angeles. Sobre o futuro na arte, é evasivo. Adianta que está nos EUA a efectuar uma pesquisa para um documentário sobre o Afeganistão; e garante que estão para sair mais conversas do oceano, mas prefere não desvendar os nomes que se seguem.

As actualizações sobre os trabalhos da Being Here estão disponíveis no site oficial da produtora.

Fotografia: Caleb Graham

*Texto originalmente publicado na edição 111 da revista Vert Magazine.