DJ Nervoso e Niagara com novos trabalhos na Príncipe

DJ NervosoSão João Baptista, EPs de DJ Nervoso e Niagara respectivamente, deram entrada no catálogo da Príncipe Discos no encerrar de Outubro e as pré-encomendas estão neste momento em expedição. São os registos P016 e P017 do espólio sonoro da editora, um lançamento simultâneo que soma a Chapa Quente de Marfox e à compilação colectiva Mambos Levis de Outros Tipos entre os trabalhos editados no presente ano pelo selo lisboeta.

DJ Nervoso tem aqui a sua primeira edição física de assinatura pessoal. Momento particularmente importante para o produtor residente na Quinta do Mocho e pioneiro da batida transformativa dos bairros periféricos de Lisboa. A sua influência nas gerações mais novas mede-se pelas palavras que lhe dedicam e que até contam como, no início do milénio, já experimentava a batida. DJ Marfox, numa longa conversa com o Siso publicada em Rimas e Batidas, recordou as primeiras festas que Nervoso deu no bairro. Eram noites longas de beats que chegavam a rolar um par de horas em loop sem que a energia da audiência esmorecesse. O jovem Firmeza, antes do seu set de estreia ao vivo em Londres, também traçou ao Siso a importância de Nervoso não só no seu percurso como produtor, como no rumo da sua vida pessoal. De resto, muitos atribuem a Nervoso a paternidade da batida poliritmica dos guetos.

As raízes desta sonoridade até estarão bem registadas em DJ Nervoso. Das seis faixas que compõem o EP, haverá algumas que serão clássicos nunca editados ou partilhados. Ressaltam, porém, as derivações românticas pelo tarraxo em “Ah Ah”, as invocações tribalescas em “Kuia” e as ebulições rítmicas de “Vuto” e “Avacs”, prontas para incendiar as pistas de dança.

A Príncipe não adianta quais das faixas são realmente produto dessas primeiras experiências sónicas em torno de kuduro, mas na nota de imprensa sobre o EP apresenta uma contextualização que curiosamente antecipa uma espécie de história da emergência da batida. “Ainda antes de se iniciar na produção, Nervoso depressa percebeu que algumas pessoas eram alienadas em festas onde se tocava kuduro angolano pela simples razão de não dominarem os movimentos associados ao estilo e suas variações. Por isso, as suas produções focaram-se na adaptação dos beats desta música de dança tão apreciada, modificando os códigos para tornar a experiência mais inclusiva.”

São João Baptista, por seu turno, é a terceira instalação do colectivo Niagara na Príncipe, sucedendo a Ouro Oeste (2013) e Ímpar (2015). É também o primeiro lançamento na Príncipe desde que António e Alberto Arruda e Sara Eckerson fundaram, há cerca de um ano, o selo Ascender – que nasceu da vontade de “editarmos alguma música nossa quando nos apetecer“. Para além do 12” de estreia Ascender, a editora conta com um catálogo recheado de CDr – ao todo são cinco as entradas neste formato no Discogs, fruto do acelerado ritmo de produção sonora do grupo. No press release deste novo EP, a Príncipe revela que “a consistência é tanta que não representou um esforço escolher quatro faixas adicionais para montar” São João Baptista.

É, por isso, um trabalho que consuma as explorações abstractas dos Niagara. “Asa” é groove funky que assenta num teclado visceral. “IV” é um kickdrum persistente rodeado de sugestões synth. E “Amarelo” é uma drum beat a guiar uma navegação de feixes sónicos e uma flauta hipnotizante. Resultados das arquitecturas singulares dos Niagara que encaixam no arquivo Príncipe como documentos de uma sonoridade muito particular e única no universo musical lisboeta.

Como é filosofia da Príncipe, DJ Nervoso e São João Baptista estão disponíveis em 12” de edição limitada. As encomendas poderão ser efectuadas através do Bandcamp da editora.

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P016 DJ Nervoso. Artwork de Márcio Matos.
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P017 São João Baptista. Artwork de Márcio Matos.

Fotografia: Ricardo Miguel Vieira

*Artigo originalmente publicado em Rimas e Batidas.