Mickey Smith revisita memórias da comunidade surfer irlandesa em Decade

“Este é o momento certo para criar algo especial, para remexer no baú, relembrar velhas histórias e colocar uma pedra sobre alguns assuntos”, revela Mickey Smith, fotógrafo e cinematógrafo britânico. “É apenas algo que preciso fazer para mim mesmo e para as imagens que revelam algumas das histórias da nossa comunidade.”

O britânico de 34 anos refere-se ao projecto Decade, álbum fotográfico que celebra a primeira década de surfadas e debravamentos da família surfer e bodyboarder irlandesa nas falésias de Moher. O lançamento do livro está previsto para o próximo Outono [nr.: entretanto ainda não foi lançado] e configura-se não só como um objecto que encerra um capítulo de reflexão introspectiva, mas também que expõe uma homenagem à comunidade local de que faz parte Michael Lee Smith, nome próprio. “Vai rever anos de juventude selvagem, aventuras e explorações do oceano através da minha fotografia.”

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Natural de Cornwall, no recorte oeste do Reino Unido, Mickey Smith cresceu entre as crueza marítima e o pano-de-fundo cinzento da Motherland. Os dias eram passados dentro de água, do nascer ao pôr-do-sol enquanto as noites discorriam nos pequenos palcos dos bares locais onde dedilhava acordes de blues e country. Aos 16 anos abandonou a escola e, com um sólido mealheiro alimentado pelas performances musicais nocturnas, seguiu os instintos e fez-se à estrada, mundo fora, munido de objectivas. Esse espírito espontâneo e independente, que se reflecte na nossa conversa, levou-o a explorações no meio do oceano durante pesadas ondulações para documentar ondas nunca antes conquistadas pelos riders e, assim, imprimir uma impressão digital – poeirenta, sublime, assombrosa e, de indelevelmente, singular – no mundo visual do surf.

A pegada de Mikey Smith, que utiliza a objectiva para sessões fotográficas e captura cinematográfica, estende-se ao bodyboard através de uma distinta herança cultural. Depois de ter realizado o já de si influente Against the Grain em 2004, é o projecto ABC – A Blank Canvas, do ano seguinte, que ainda hoje permanece intocável no seu estatuto de documentário de culto de bodyboard pelo registo mítico e despido de inconsequentes manipulações imagéticas de uma mítica aventura de cinco amigos, e de cinco meses, por alguns dos lugares mais inóspitos da Europa fria. “É espectacular assistir à pura liberdade do poder criativo e imprudente do indivíduo que anda no oceano com uma boogieboard”, confessa. “O lado freesurf do bodyboard é impressionante. As ondas incrivelmente grandes, a fluidez, as manobras gigantes, enfim, há tanto por onde puxar os limites que é realmente excitante ver o que mais virá aí. Na realidade, não há limites.”

Uma perspectiva honesta da essência do bodyboard e do surf que advém da orgânica amistosa, e até fraterna, inerente à comunidade do sudoeste da Irlanda. “[Nós, surfistas e bodyboarders] somos amigos próximos e não existem diferenciações entre nós. Não vejo qualquer necessidade de tensões entre pessoas que andam de formas diferentes no mar. Há coisas bem mais trágicas a acontecer no mundo para que desperdicemos energia a preocuparmo-nos se alguém anda com uma prancha diferente no mar. É ridículo.”

E como é que Mickey Smith revê a sua vida no exterior do oceano ao longo da última década? “Nunca imaginei que a minha vida se tornasse numa jornada louca, cósmica, inesperada, de alegrias e tristezas e tudo o que se encontra no meio. Coisas que outrora julgava inacreditáveis aconteceram em determinados períodos e isso impressiona-me.” O também surfista enumera vários acontecimentos pessoais que marcaram o seu percurso até hoje: os dias a rolar pela estrada sem destino; o nascimento da filha, há três anos; e a carreira musical, que é, nesta altura, a sua actividade fixa. Após dirigir alguns videoclipes do grupo de Ben Howard, cantor e compositor britânico de indie folk, Mickey Smith integrou o colectivo originário de Devon como guitarrista. A banda está agora em tour mundial a apresentar o mais recente álbum, I Forget Where We Were.

Escapa nesta enumeração o acontecimento que mais o marcou até ao presente: a morte da irmã, a sua maior influência, há cerca de 7 anos. Foi para ela que produziu a épica curta Dark Side of the Lens (2010); é por ela que se activo na sua criatividade; e é também para ela que está a preparar Decade. E toda a figura da mana é francamente simbólica na história recente de Smith. É que foi no dia em que Cherry deu à luz o pequeno Riley, sobrinho de Mickey Smith, que o fotógrafo e cinematógrafo descobriu uma possante esquerda que rolava na sombra das falésias de Moher, e que este apelidou de… Riley’s.

As actualizações sobre Decade estão disponíveis no site oficial de Mickey Smith.

Fotografias: Mickey Smith

*Texto originalmente publicado na edição 111 da revista Vert Magazine.