Dicas para te tornares num aliado na luta contra o racismo


Com o mundo de joelhos em memória de George Floyd Jr. e todos aqueles a quem a vida foi roubada pelo racismo e discriminação sistémicos, a única certeza é a de que todos temos de fazer mais e melhor. Este é o momento de reflectir, escutar, aprender e agir em apoio às comunidades negras – em Portugal e no mundo.


George Floyd Jr. era pai de uma menina de 6 anos, marido e filho. Tinha 46 anos quando a 25 de Maio de 2020 morreu no asfalto do bairro Powderhorn Park, na cidade de Minneapolis, estado do Minesota, EUA, sufocado pelo joelho de um agente da polícia que nele se debruçou, de mãos nos bolsos, durante quase 9 minutos, enquanto Floyd clamava num sussurro asfixiado pela ajuda da mãe (falecida há dois anos) e repetia (até ao último fôlego): “I can’t breathe“.

Desde a tragédia de George Floyd Jr., multiplicam-se os protestos e gritos de #BlackLivesMatter pelos 50 estados norte-americanos. Grupos de manifestantes aglomeraram-se pacificamente nas ruas das principais cidades para exigir justiça e uma mudança drástica no paradigma social de um sistema que não está broken, mas que assim foi construído. Até ao momento, a batalha nas ruas já levou à acusação de homícido de segundo grau do polícia que asfixiou Floyd, bem à como a detenção de outros três colegas.

Mas as acções de rua por si só não são suficientes para engrenar uma transformação tão profunda na relação das sociedades com as comunidades negras. E nesse aspecto, Portugal também tem muito caminho a palmilhar.

Não temos todas as respostas para darmos a volta ao texto, mas assumimos que temos de fazer mais e melhor pelas minorias e que isso exige dedicação permanente. Este é o momento de denunciarmos e censurarmos comportamentos racistas, xenófobos e segregacionistas, mas também de reflectirmos, escutarmos, educarmo-nos, para a luta travada pelas comunidades mais excluídas e negligenciadas das nossas sociedades, inclusivamente em Portugal.

Daqui parte a iniciativa – já amplamente divulgada noutros meios, mas que nunca é demais replicar – de enumerar diferentes referências para ampliarmos o nosso conhecimento sobre a condição quotidiana das comunidades negras. Uma forma de relembrar que as lutas anti-racistas são travadas diária e activamente.

Fica também a nota que Portugal vai sair à rua este fim-de-semana sob o mote “Vidas Negras Importam”. Amanhã há manifestação pacífica na Alameda, em Lisboa, a partir das 17.30h. No Domingo repte-se a acção junto à embaixada dos EUA, também em Lisboa, pelas 12.30h.

DOAR

Os exemplos de associações, grupos e coletividades dedicadas à defesa dos direitos dos negros e minorias em Portugal serão certamente em número mais alargado do que aquele que aqui revelamos. O importante, porém, é compreender que estas entidades independentes, sem fins lucrativos, e muitas delas de carácter local, batalham diariamente para prosseguir com as suas actividades, pelo que dependem do apoio e colaboração, nas mais diferentes formas, de todos os cidadãos.

Os donativos para estas instituições são imprescindíveis para que as mesmas reúnam as condições necessárias para investirem nos seus objectivos de valorização cultural e social das comunidades a que se dedicam, ao mesmo tempo que promovem o diálogo e partilha de conhecimento com toda a sociedade.

Se doar não estiver ao vosso alcance, também não é problema. Envolvam-se nas actividades destes coletivos, estejam atentos à sua mensagem e participem das acções que promovem sempre que possível.

Joana Gorjão Henriques é jornalista do Público e uma figura importante na exposição das discriminações raciais prevalecentes no universo lusófono.

“Racismo em Português: O Lado Esquecido do Colonialismo” (Tinta da China, 2016) resulta de uma série de reportagens nas ex-colónias portuguesas em África que têm o mérito de desconstruir os mitos da excepcionalidade portuguesa durante o colonialismo, ao mesmo tempo revela como os seus efeitos ainda estão bem presentes no tecido social destas sociedades.

O livro é acompanhado de um DVD com entrevistas aos diversos protagonistas que surgem nesta obra. O mesmo formato também está incluído em “Racismo no País dos Brandos Costumes” (Tinta da China, 2018), outro dos títulos sobre racismo de Joana Gorjão Henriques.
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“Um Preto Muito Português” (Editora Chiado, 2017), livro da escritora e rapper Telma Tvon, “aborda questões de identidade referentes a um jovem nascido e educado em Portugal descendente de Cabo-Verdianos.”

“A Budjurra, como é conhecido, conta-nos as suas aventuras numa sociedade que o vê e trata como minoria. Revela-nos as suas inquietações e levanta algumas questões relativamente a conceitos como raciscmo, discriminação, estereótipos, igualdade e humanidade.

O livro defende Certezas? Algumas! Todas e mais algumas.”

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‘Memórias da Plantação: Episódios de Racismo Quotidiano’ (Orfeu Negro, 2019) é uma compilação de episódios quotidianos de racismo, escritos sob a forma de pequenas histórias psicanalíticas.
Das políticas de espaço e exclusão às políticas do corpo e do cabelo, passando pelos insultos raciais, Grada Kilomba desmonta, de modo acutilante, a normalidade do racismo, expondo a violência e o trauma de se ser colocada/o como Outra/o.
Publicado originalmente em inglês, em 2008, ‘Memórias da Plantação’ tornou-se uma importante contribuição para o discurso académico internacional. Obra interdisciplinar, que combina teoria pós-colonial, estudos da branquitude, psicanálise, estudos de género, feminismo negro e narrativa poética, esta é uma reflexão essencial e inovadora para as práticas descoloniais.”
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Ta-Nehisi Coates é há muito uma autoridade no que à análise cultural, social e política dos afro-americanos diz respeito. Jornalista e autor originário de Baltimore, no estado de Maryland, Coates escreveu uma série de obras ficcionais e não-ficcionais que abordam a condição dos negros na América. Entre esses título inclui-se “The Beautiful Struggle” (Verso, 2008) “The Water Dancer” (2019, Penguin) e o comics “Black Panther” (Marvel, 2016).
“Entre Mim e o Mundo” (Itaca, 2016) é uma longa e profunda reflexão sobre o racismo em forma de uma carta para o filho adolescente. O livro é também autobiográfico nas suas passagens sobre a infância de Coates em Baltimore e mistura o seu interesse pela literatura negra com eventos trágicos que viveu numa América intolerante, onde a melanina no rosto determina precocemente o destino de quem a carrega.
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Olhando para a extensa lista de obras publicadas por James Baldwin, o difícil não é encontrar um título que invoque a problemática do racismo na América; é escolher entre estes um ponto de partida para mergulharmos na prosa pessoal e profunda deste escritor, argumentista, ensaísta, poeta e activista originário do Harlem, Nova Iorque, prolífico na exploração de narrativas sobre as luta de classes, sexualidade e dinâmicas raciais.
Publicado pela primeira vez em 1963, bem no âmago de uma década de tenso combate pelos direitos civis dos negros na América, “The Fire Next Time” (Taschen, 2019) reúne um par de ensaios profundamente intimistas que põem o dedo na ferida sobre o “problema da América com os negros”.
Um destes ensaios está disponível para ler na New Yorker.
Dois jovens filhos de imigrantes cabo-verdianos que nasceram e vivem nos arrebaldes de Lisboa e que enfrentam obstáculos no seu dia-a-dia enquanto sonham com os documentos que os tornam cidadãos portugueses por direito.
“Li Ké Terra” (2011) é um documentário ao mais puro estilo do-it-yourself que move sentimentos de empatia e angústia, mas também de esperança, numa luta diária dos portugueses que a lei da nacionalidade preversamente não reconhece.
É da autoria de Filipa Reis, João Miller Guerra e Nuno Baptista.
“La Haine” (1995) celebra 25 anos desde a sua estreia, mas nem por isso perdeu uma ponta de relevância nos dias que correm.
A obra maior do realizador francês Mathieu Kassovitz transporta-nos para um dia na vida de três jovens originários dos banlieues parisiense – um judeu do leste europeu (Vinz), um norte africano (Saïd) e um negro (Hubert). No centro da narrativa está uma arma que Vinz roubou a um polícia e com a qual jura fazer justiça pelo amigo que se encontra à beira da morte no hospital após ser espancado por um agente.
Retrato controverso de uma França que se viu forçada a olhar para si própria e a confrontar-se com a realidade dos guetos periféricos que rodeiam a capital, e onde o mote de vida dos jovens que os habitam é “jusqui’ci tout va bien” (até aqui, tudo bem).
Não será de todo um exagero afirmar que “The Wire” (2002) se trata de uma das mais relevantes séries televisivas alguma vez criadas nos Estados Unidos. Ou pelo menos que deveria ser de visionamento obrigratório.
Centrando-se nos guetos de Baltimore, densamente populados por afro-americanos, a série escrita por David Simon (ex-jornalista) e Ed Burns (ex-detective de homicídios) divide-se em cinco temporadas que dissecam com rigor o ciclo vicioso de negligência social e racismo sistémico que pairam em cada esquina destes bairros norte-americanos. Status este que tem em “The Wire” um confronto directo com a burocracia e a corrupção política e judicial que perpetuam a deterioração destas comunidades.
Drama produzido por Ava DuVernay (“13th”, “Selma”), “When They See Us” (2019) é baseado no caso dos Central Park Five, que levou Donald Trump a publicar em diversos meios de comunicação uma carta a exigir a pena de morte dos jovens envolvidos.
Os eventos remontam a 19 de Abril de 1989, quando cinco miúdos foram detidos no famoso Central Park de Nova Iorque na sequência da violação de uma jogger branca. Os jovens, então menores, foram interrogados sem a presença de advogados ou familiares e emocionalmente manipulados até assinarem uma nota de culpa pelo crime – apesar de clamarem inocência desde o primeiro instante.
Os jovens acabaram condenados a penas entre 5 a 16 anos de cadeia em 1991. Onze anos mais tarde, foram libertados depois de um homem ter assumido a autoria do crime.
Este é talvez um dos retratos mais crus e esclarecedores da negligência sistémica de estado a que as comunidades negras estão sujeitas nos Estados Unidos da América.
“When The Levees Broke” (2006) é uma mini-série de quatro espisódios realizada por Spike Lee em homenagem às vítimas (mortais e não só) do Furacão Katrina, que atingiu a cidade de Nova Orleães em 2005.
A série expõe a inacção cruel, criminosa e exasperante do executivo de George W. Bush no momento de prestar auxílio aos habitantes das zonas mais desprivilegiadas da cidade (ou seja, de grande presença de famílias negras) após a razia provocada pela tempestade mais devastadora alguma vez registada naquela região.
Aguarda-vos corpos em decomposição, populações encurraladas nas ruas sem acesso a bens essenciais e famílias desenraízadas, separadas e espalhadas por diferentes estados norte-americanos.

OUVIR

Para além de Associação Cultural – da qual te podes tornar sócio -, a AfroLis é também um rádioblogue que se afirma como “um espaço de expressão cultural feito por afrodescendentes a viver em Lisboa. Artistas, menos artistas, pessoas comuns e menos comuns falam sobre negritude, racismo e identidade revelando facetas da consciência negra emergente em Portugal.”
podcast_cidade_invisivel
Programa da rádio Antena 1 que conta com a moderação de, entre outros, António Brito Guterres, uma das mais energéticas e perspicazes figuras na divulgação e combate às discriminações e injustiças raciais e sociais no nosso país.
A Cidade Invisível fala dos processos não convencionais de aquisição de conhecimento que acontecem nas periferia da sociedade, vulgo a ‘Escola da Vida'”, conta uma das descrições que se encontra sobre este que é um dos podcasts – e serviços públicos – mais pertinentes em Portugal.

Esta lista é uma gota no oceano de recursos disponíveis para nos educarmos – a nós e ao próximo – sobre anti-racismo – seja através do cinema, literatura, música, associações ou movimentos organizados. Para uma amostra mais generosa de referências sobre o tema, convidamos à visita regular dos documentos Google que entretanto foram criados para o efeito: um dedicado ao universo português, e outro de carácter mais global.

A ilustração deste artigo é do sepher. Sigam-nos no Instagram.

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