A vida nas favelas do Rio contada pelo funk carioca

Sexo, amor e comunidade

Com o documentário Inside the Mind of Favela Funk, Elise Roodenburg e Fleur Beemster desenham pontes entre o funk putaria e as vidas pessoais e amorosas da juventude dos guetos do Rio de Janeiro.


A

história conta-nos que, em finais dos anos 1970, era comum os DJs brasileiros embarcarem em trips a Miami para atestarem as suas colecções com os discos de música negra que providenciavam o som de fundo aos conflitos raciais nos states. Para aqueles DJs, muitos provenientes das favelas do Rio de Janeiro, eram sobretudo as composições revolucionárias de hip-hop e funk que despertavam a curiosidade e que, pelo caminho, lançavam pistas para as explorações sónicas de onde brotaria o funk carioca – o favela funk como lhe apelidamos.

Mais de trinta anos volvidos e o ritmo dos guetos do Rio é hoje celebrado nos seus mais diversos sub-géneros pelos circuitos globais da dance music. Do melódico ao rasteirinha, passando pelo proibidão, o favela funk ramificou-se num sem número de sonoridades, entre o tradicional e o moderno, sem nunca deixar pelo caminho as suas raízes profundamente comunitárias, de resistência à opressão e celebração identitária. Tanto mais interessante é o facto do favela funk carregar muitas vidas nos seus ritmos: os seus versos são menos uma simulação de realidades distantes, e mais um espelho das dinâmicas sociais e do ambiente que rodeia os produtores e rappers das favelas.

O funk putaria, por exemplo, é um dos estilos que melhor representa as dinâmicas sociais dos bairros desprivilegiados do Rio. Se por um lado o som é quente e absolutamente físico e sexual, por outro as construções narrativas são espelho das regras invisíveis que definem os relacionamentos entre homens e mulheres dentro das fronteiras dos morros.

Mas há no putaria mais do que aquilo que a superfície revela, o que levou as realizadoras Elise Roodenburg e Fleur Beemster a procurar a união de pontos entre a música explícita e o dia-a-dia nos guetos cariocas através do documentário Inside The Mind of Favela Funk.

Com pouco mais de uma hora de duração, Inside The Mind apresenta um retrato intímo de um grupo de jovens residentes de diferentes favelas do Brasil, confrontando as suas perspectivas sobre amor e sexualidade com as líricas do putaria. É, acima de tudo, um olhar descomplexado e humano para a influência que o putaria exerce nas novas gerações, mas também na formação de laços de amizade e identidade nestes bairros segregados.

Numa conversa com as realizadoras, que nos últimos anos têm feito Inside the Mind circular por diferentes festivais de cinema documental, mergulhamos nos desafios de filmar no interior das favelas e sobre a convivência dos jovens locais com o funk carioca.

Como é que vocês se conheceram e uniram para produzir um documentário sobre favela funk?

Fleur Beemster: Conhecemo-nos num encontro de activistas no Brasil, numa altura em que me encontrava a investigar as transformações sociais provocadas pelo Campeonato do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos naquele país. O meu primeiro pensamento foi, ‘qual é a probabilidade de me cruzar com outra rapariga holandesa numa reunião de manifestantes brasileiros’. Ela é antropóloga e estava a estudar assuntos semelhantes aos meus e a partir daí ajudámo-nos uma à outra nos nossos projectos. Ela também fez imensas pesquisas sobre favela funk e quando nos conhecemos já tinha dado os primeiros passos para produzir o documentário.

A Elise [Roodenburg] estava surpreendida com a popularidade da música entre as amigas dela porque se trata de uma música que os Ocidentais por vezes consideram degradante para as mulheres. Depois, a maioria da sociedade brasileira desaprova esta cultura, pelo que é comum que se gere interesse sobre a história e as pessoas que fazem parte de um advento cultural semelhante. Eu também estava intrigada com as relações entre os homens e as mulheres e sobretudo curiosa para saber se falariam abertamente sobre as suas vidas nas favelas, o que acabou por acontecer.

Vocês tiveram acesso privilegiado a festas privadas e filmaram alguns contextos de rua. Como é que os locais reagiram à vossa presença e ao trabalho que estavam a realizar?

Elise Roodenburg: Algumas pessoas mostraram-se um pouco relutantes e mantiveram uma certa distância porque se sentiam um pouco ameaçadas pela presença de estranhos, mas as pessoas são geralmente muito simpáticas.

FB: O que não quer dizer que pudemos filmar em todo o lado, principalmente nas ruas. A maioria das favelas onde gravámos – Vila Cruzeiro, Cidade Alta, Complexo do Alemão – é dominada por gangues, então havia regras a cumprir. Não podíamos sequer tirar fotografias na rua com os nossos telemóveis. Tivemos sempre que nos organizar bem, por isso é que filmámos imenso dentro de casa. Mas os nossos protagonistas trataram-nos muito bem. Alguns eram amigos da Elise, então criaram-se laços de confiança desde o princípio do projecto.

ER: [A empatia] é algo que surge de forma muito natural, nem se quer me passou pela cabeça que as pessoas agissem de forma diferente só porque sou branca ou estrangeira ou loira. Senti-me totalmente aceite pela comunidade. Eles podem reparar que és estrangeira e lançar um comentário, como chamar-te ‘barbie‘, mas é de forma positiva e como piada. Provavelmente houve algumas pessoas que não gostaram [da nossa presença], mas também houve muitos que simplesmente não queriam saber e outros até que gostaram e trocaram ideias connosco. O facto de sermos gringos não mudou em nada a nossa relação com eles, fluiu tudo entre iguais.

E qual foi o feedback dos protagonistas ao resultado final do documentário?

ER: Não tive a oportunidade de ver o documentário com todos eles, mas creio que gostaram de se ver a si próprios. Mas não houve propriamente uma reacção forte em termos de uma reflexão sobre a vida deles. Acharam engraçado, às vezes embaraçoso e outras vezes ficaram orgulhosos. O Bruno, um dos nossos protagonistas principais, estava muito orgulhoso das pessoas terem gostado da poesia dele. Quando estive no Festival de Cinema do Rio, muitas pessoas manifestaram interesse em ajudá-lo a publicar a sua poesia num livro.

Fora das favelas do Rio, as pessoas também ouvem funk, o que acho extremamente hipócrita. Quem vê de fora faz julgamentos e critica a música, mas à meia-noite, seja qual for a festa na cidade, há sempre funk a rodar.

Elise Roodenburg

Quão popular é o favela funk – e sobretudo o putaria, que parece ser o mais célebre – no Rio de Janeiro?

ER: É enorme! Putaria é um género específico, depois há outros como o proibidão (gangsta), pop funk, funk antigo, evangélico ou oestenação. O funk de ostentação é muito popular em São Paulo, enquanto que o putaria reina no Rio de Janeiro. Qualquer que seja a favela em que entres no Rio, vais ouvir funk e normalmente é putaria. Toca dia e noite, não há como escapar. Ou seja, as crianças ouvem putaria, por isso, mesmo que sejas evangélico e não queiras que os teus filhos o escutem, não há nada que possas fazer.

Por outro lado, fora das favelas do Rio, as pessoas também ouvem funk, o que acho extremamente hipócrita. Quem vê de fora faz julgamentos e critica a música, mas à meia-noite, seja qual for a festa na cidade, há sempre funk a rodar. Um bar numa zona rica que passe funk vai estar pelas costuras. É uma característica do género: é provocador, altamente sexual, mas atrai imensas pessoas.

E pegando na vossa experiência, de que modo o funk reflecte a vida no interior dos microcosmos que são as favelas?

ER: Reflecte de imensas formas. Mostra-nos que as favelas são uma espécie de submundo e culturas onde diferentes leis e valores morais são aplicáveis, especialmente no que diz respeito a relações humanas, ao amor e sexo. Do mesmo modo, diz-nos que o que consideramos normal ou bom ou mau [na nossa cultura] não é visto da mesma forma por outras pessoas ou sequer algo que procurem para as suas vidas. Mas há esta noção de que o funk é a realidade, embora levante uma questão: o que é que surgiu primeiro, a realidade ou o funk? A mim parece-me uma troca: foi de certo modo a realidade para algumas pessoas e acabou por influenciar os comportamentos de outras. Creio que dá para ambos os argumentos.

É comum os julgamentos sobre o putaria com base nas letras, e sobretudo pela representação das mulheres nessa narrativa. Isto não significa que não haja artistas femininas de putaria, como é o caso do grupo Apetitosas, formado exclusivamente por mulheres. O que é que as motiva a ser parte activa dessa cena funk – redireccionar a narrativa para uma perspectiva feminina?

FB: É interessante, numa das entrevistas às Apetitosas, elas intitulam-se de feministas. É um grupo que pode ser visto como uma contra-reação à cena funk dominada pelos homens. Para mim, faz mais sentido cantar sobre dominar os homens em vez de ser dominada por eles, mas acontece que não é assim que se expressam. De qualquer modo, fazem dinheiro com a música que criam e talvez seja essa a forma destas mulheres melhorarem as suas vidas.

ER: Exacto, o que as motiva é o interesse comercial, é uma boa maneira de gerar dinheiro e se divertirem. Também há grupos funk que são mais agressivos em relação aos homens, em que as mulheres afirmam poder fazer o mesmo que os homens fazem, como se fosse uma batalha. Há motivações diferentes.

FB: Ainda assim, para mim, rotular alguém de feminista é relativo. Eu posso dizer que sou feminista e tu discordares. Este grupo também o pode dizer, mas há motivações que podem ser interpretadas de modo diferente noutras sociedades. Tudo depende do background cultural e do ambiente social, bem como das normas que pretendes desafiar. No palco, estas mulheres são verbalmente agressivas e muito sexuais, mas quando o show termina, são mulheres normais que conversam sobre as suas unhas, os seus filhos e maridos. A música não passa de um espectáculo.

ER: Na verdade, as Apetitosas gostariam de cantar pop funk, mas para chegarem a esse patamar têm, primeiro de tudo, tornar-se artistas funk e depois conhecidas nas favelas. A maioria gosta do que está a fazer, diverte-se e ganha um bom salário, e aí está uma certa motivação. Não é a música que sonham criar, mas é um primeiro passo rumo a uma carreira de estrelas. Já as letras em si, podem parecer questionáveis para mim e para ti, mas as mulheres das favelas não pensam do mesmo modo.

Incluir no filme a representação da igreja Evangélica ao lado do favela funk foi uma forma de representar a polarização das mentalidades jovens nas favelas.

Fleur Beemster

Há uma protagonista que diz que se as mulheres não apreciassem tanto favela funk, então não haveria letras misóginas. É uma afirmação que levanta velhos preconceitos sobre a arte e desvia a atenção dos reais problemas que existem nestas comunidades.

ER: Nas favelas, se alguém quer ir a uma festa ou passar um bom momento de lazer, isto é o que há. Estas festas são gratuitas, perto de casa e todos os teus amigos estão presentes, por isso é aqui que tu queres ir. Tem uma grande atmosfera e um lado provocador que elas apreciam. Torna-se tão normal que acabam por gostar.

FB: Estas festas são o teu escape, algo pelo qual esperas toda a semana. Era preciso muita disciplina para não participares, além de que acabarias eventualmente por ser tratado como um estranho [pelos teus amigos]. As favelas são comunidades pequenas e isoladas onde há muito controlo social e bisbilhotice. Viver numa comunidade como esta, seja onde for, pode trazer à tona muita mente fechada.

O que quero dizer é, porque é que as pessoas não abandonam as favelas? Para além de não terem dinheiro, é também um lugar onde se sentem em casa e onde estão as suas famílias. Há uma frase muito interessante do Bruno em que ele diz que, quando caminha pelas praias de Copacabana ou Ipanema, as pessoas olham para ele como um ladrão. Por outro lado, na favela, ele conhece as regras, as roupas que usa fazem sentido, toda a gente é parecida. É a sua zona de conforto.

As pessoas que vivem nas favelas pertencem a grupos minoritários e, como com qualquer minoria noutra sociedade, é difícil abandonar tudo o que se conhece. Além disso, podes ser visto como um estranho e isso é muito complicado. No fundo, significa perderes as tuas pessoas. E quem é que quer isso? É um assunto complexo.

O Bruno aparece no documentário quase como um anti-herói porque, ao contrário da corrente, canta e escreve poesia a homenagear as mulheres. Encontraram outros artistas com uma postura semelhante?

ER: Sem dúvida. O retrato que criámos da favela funk não se aplica a toda a gente nas favelas. Há muitas pessoas diferentes, como os evangélicos, que são um grande grupo, e outros que procuram uma outra vida, que trabalham imenso e têm dinheiro suficiente para estudar e ir a festas fora da favela. Mas a maioria ou gosta de funk ou são evangélicos. O Bruno, curiosamente, é um pouco dos dois. Ele louva as mulheres, mas também já traiu a namorada. Muitos homens nas favelas elogiam as mulheres, só que não elogiam apenas uma. Acho que muitas pessoas têm um pouco de ambos em si: podem ser parceiros românticos, mas ao mesmo tempo adúlteros. Há também muita violência doméstica e o Bruno é uma pessoa que não faria tal coisa. As favelas são caldeirões com imensas pessoas, não há uma igual à outra.

Agora que mencionas os evangélicos, um dos mais interessantes constrastes no documentário é o que opõe a igreja ao favela funk. Que relação encontraram entre ambas as estruturas sociais nas favelas?

ER: A igreja Evangélica está a crescer dentro das favelas, tem os seus próprios coros e não é apreciadora das pessoas que frequentam bailes funk. Ou seja, rejeita o favela funk, especialmente putaria, proibidão e até o funk melódico. A igreja Evangélica representa uma espécie de escape para as pessoas cansadas desse tipo de vida boémia. É conservadora e impõe muitas regras que são desiguais tanto para mulheres como para homens. Há igrejas que querem que as mulheres se cubram com vestidos longos, por exemplo. É diferente do funk, mas não diria que é melhor. Na verdade, tenho muitas questões sobre a igreja e sem dúvida que gostaria que fosse o tópico do meu próximo documentário.

FB: Da forma que o vejo, [na favela] ou és funkeira ou evangélica; ou vives uma vida de bem ou de mal. Nós queríamos incluir esses elementos porque a Aline é uma funkeira que se tornou evangélica. Aquilo que nos interessou mais na Aline foi o facto de o funk ter sido um estilo de vida extremo a que se dedicou imenso, mas depois a igreja Evangélica pareceu ter um significado semelhante. Pelo que vimos em festas funk e mais tarde na igreja, ou há um cantor aos gritos a guiar o público ou um pastor a ordenar as pessoas para explusarem o diabo de dentro delas. E a Aline parece ter ido de um extremo para outro para poder pertencer a um grupo maior. Será que ela estava à procura de algo a que se agarrar?

De um modo geral, a igreja providencia conforto às pessoas em todo o mundo, até mesmo objectivos de vida. No fundo, tem um significado semelhante ao funk para as funkeiras. Não é uma religião, é uma forma de exteriorização que ajuda a processar as coisas. Enquanto evangélica, a Aline não pode beber mais e tem de ser sempre fiel. É o oposto do estilo de vida funk. Incluir este elemento no filme foi uma forma de representar a polarização das mentalidades jovens.

Como é que vêem o vosso documentário a contribuir para uma conversa sobre as dinâmicas sociais no seio das próprias favelas?

FB: Talvez incitando a uma reflexão. Eu não posso ter uma opinião sobre algo que acontece tão longe de onde vivo. Só posso experimentar, levar comigo e reflectir com base na minha cultura e arredores. Com o documentário a viajar pelo mundo, é interessante que este possa ser usado para uma reflexão face a diferentes culturas porque apresenta uma realidade completamente diferente para muitas pessoas. É positivo que as pessoas observem como os outros se preocupam com coisas diferentes e que possam reflectir sobre as suas vidas. Na maior parte dos casos, encontramos mais semelhanças do que diferenças.

ER: Mesmo assim, queria criar uma maior compreensão, dar voz [a estas pessoas], observar através da perspectiva delas e talvez criar um debate sobre como os direitos dos homens e mulheres não são iguais. Isto é um problema em todo o mundo, mas mais vincado nas favelas. Os homens podem ter várias mulheres, mas o contrário não pode acontecer. Há regras subliminares sobre isto e posterior violência doméstica. Eu queria iniciar um debate sobre isto e sobre como as crianças estão expostas a estas letras. É como o Bruno diz: se queres mudar o funk, então tens de ir à favela e começar a melhorar as condições de vida [das pessoas], porque o funk reflecte essa realidade.

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Entrevista originalmente publicada na Staf Magazine. Editada na extensão e enquadramento editorial.

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