Surf e responsabilidade são opostos que não se atraem

Uma reflexão em tempos de pandemia

Com as entidades do surf em Portugal a procurarem regular atitudes, o que está em causa é mais do que uma nova forma de estar no mar: é a própria essência do acto de surfar.


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urante o período mais crítico do “Grande Confinamento” recebi algumas mensagens de amigos surfistas dizendo-me que tinham ido ao surf em tom meio jocoso. Não achei piada nenhuma e nem respondi. Mas também não me precipitei em julgamentos, muito menos públicos. Parece-me que ficar em casa e respeitar o enorme esforço coletivo que todos fizemos, teria sido o mais sensato. Isso é óbvio.

Dessas pequenas transgressões em tempo de quarentena resultou um outro fenómeno. Quando o país se preparava para o desconfinamento progressivo a partir de 4 de Maio, esta passou a ser a data sugerida para o regresso ao mar e ao surf. As entidades oficiais do surf em Portugal puseram então a circular um panfleto digital de nome “Voltar ao Mar”, com uma série de “regras” propostas às autoridades sobre como os surfistas se deviam comportar no tal regresso.

O panfleto foi acompanhado nas redes sociais com várias proclamações e apelos à “responsabilidade” dos surfistas. Entre o mau exemplo dos meus amigos e a responsabilidade que agora se pede para a nova normalidade vão anos-luz de distância. É a meio dessa viagem que me encontro e queria só lembrar isto: surf e responsabilidade não combinam.

Em princípio, não há nada de “responsável” em contrariar correntes marítimas, entrar na água nos dias mais frios do ano, atravessar caminhos pejados de ouriços, apanhar ondas em bancadas de pedra com água pelo tornozelo, correr permanente risco de afogamento e sair da água com quebra cocos em cima de enseadas rochosas. No fim, também não.

Também na sua dimensão cultural e social, o surf sempre foi sempre tudo menos responsável. O que é que “Big Wednesday”, “Endless Summer”, “Morning of The Earth”, “Barbarian Days” ou “Sea of Darkness” nos ensinam sobre responsabilidade? O que é que o errante Miki Dora nos diria sobre o assunto? E os eternos índios à volta da fogueira das ondas, marés e ventos, que foram subvertendo pedras angulares da aparente vida “responsável” como carreira e família só pela mera hipótese de apanhar mais uma – só mais uma – e sair?

Queria só lembrar isto: surf e responsabilide não combinam

Não deixa de ser interessante que se tenha pedido “responsabilidade” aos surfistas a propósito deste “Voltar ao Mar”. Não pude deixar de me lembrar de Slavoj Žižek quando este reflecte sobre as ambiguidades da sociedade de consumo escondidas no estilo de vida hedonista que a primeira aparentemente propõe através da “liberdade de escolha”.

Ah, a liberdade de escolha. A verdade é que essa liberdade de escolha oculta ordens mais fortes e somos obrigados a fazer as “coisas certas” para nos satisfazermos dentro desse quadro – por exemplo, ter a alimentação “apropriada” e fazer o exercício “apropriado”.

Žižek, numa das suas primeiras aparições na televisão norte-americana – hilariante e imperdível – para falar do seu livro “The Puppet and The Dwarf” (2003), refere que uma das formas que a sociedade de consumo fabricou para alimentar a nossa felicidade dentro dessa aparentemente infinita “liberdade de escolha”, foi a de nos oferecer coisas – “prazer” – completamente despojadas da sua essência. Como, por exemplo, “Café sem cafeína” e “doces sem açúcar”, entre outras. E é exatamente isso que me parece ser “surf com responsabilidade”. O filósofo esloveno argumenta que isso significa que, ao contrário do que pensamos, as nossas vidas estão cada vez mais reguladas. E esta é uma reflexão que faz sentido convocar nos dias que correm.

Surf “com responsabilidade?” Não, obrigado.

Manuel Castro, também desconhecido por Manel é, entre outras coisas, surfista. Sigam-no no Instagram.

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