Manifestação “Vidas Negras Importam” em Lisboa pela lente de Adilson Monteiro

No Cachupa 4 Racists

Imagens e testemunho na primeira pessoa de uma manifestação sem precedentes contra o racismo sistémico em Portugal.


6 de Junho de 2020 ficará na história da luta anti-racista em Portugal. Milhares de pessoas desceram da Alameda até ao Cais do Sodré para gritar a uma só voz que as “Vidas Negras Importam” e exigir uma mudança profunda na forma como a nossa sociedade se relaciona com os negros e minorias. Os protestos, que ocorreram em paralelo com uma acção global do movimento Black Lives Matter, estenderam-se a várias cidades do país – Coimbra, Porto, Faro -, numa demonstração arrepiante de união coletiva contra a discriminação racial nunca antes registada no nosso país.

O relato que se segue é de Adilson Monteiro, 22 anos, fotógrafo nas horas vagas que registou para memória futura a histórica manifestação em Lisboa. Fica o convite para seguirem o seu excelente trabalho visual no Instagram.

Esta foi a primeira manifestação anti-racista em que participei.

Foi muito importante para mim estar presente. Foi um dia histórico e estas fotografias são o retrato disso mesmo. O que procurei com a minha arte foi deixar uma marca. Imagina que daqui a 100 anos me mandam a casa abaixo e alguém encontra estas fotos num baú? E há também muitas fotografias que vi por aí que poderão valer ouro daqui por muito tempo.

Juntei-me ao grupo na Alameda e marchámos até ao Cais do Sodré. Foi uma manifestação pacífica comparada com outros países. Ainda assim, vi alguns lojistas receosos que alguém tentasse destruir o seu estabelecimento. À medida que passava pelas lojas, via os donos baixar o gradeamento de protecção para as pessoas não entrarem. Mas o ambiente esteve sempre muito bom, com uma grande diversidade de pessoas, de todas as gerações. Parecia uma festa, com o pessoal a reivindicar os seus direitos, a falar sobre o que se passa com o racismo em Portugal e a mostrar que todas as vidas importam.

Nasci em Cabo Verde e mudei-me para Portugal quando tinha dois anos. Cresci no Bairro das Marianas, em Cascais, até aos 11 anos e mais tarde mudei-me para Alcabideche, onde hoje moro. Uma das experiências mais marcantes com racismo aconteceu-me quando estava na primeira classe. Tinha 6 anos. Um colega de turma convidou-me para a festa de anos da irmã, algo que me deixara super feliz porque na altura ninguém me convidava para aniversários. Mais tarde, disse-me que eu não podia ir porque a irmã era alérgica a pretos. Na altura, eu acreditava em tudo o que me diziam, mas hoje questiono os valores que terão incutido a esse amigo que nunca mais vi.

A manifestação pretendia surtir um efeito sobre os comportamentos que a sociedade adopta sobre todo o tipo de raças. O que procurei documentar foi as expressões das pessoas, as mensagens que pretendiam transmitir, a realidade do que ali se passava. Quando fotógrafo, procuro ser fiel à minha forma de olhar o mundo e sobretudo de mostrar as pessoas tal como as vejo.

O que mais apreciei na manifestação foram os cartazes. Um que me ficou na memória dizia, ‘não há cachupa para os racistas’. Achei uma piada doce por ser cabo-verdiano. Muitas frases surpreenderam pela inteligência da mensagem.

Houve outras com as quais não me identifiquei. Há uma foto a correr os jornais que mostra um cartaz com a mensagem, ‘polícia bom é polícia morto’. Não gostei de ver cartazes a incitar ao ódio. Isso distrai do objectivo da manifestação, então recusei-me a fotografar essas mensagens. Estive sempre muito atento aos cartazes que registava nas imagens.

Uma coisa que me surpreendeu imenso foi ver pessoas a distribuir máscaras e a oferecer gel aos manifestantes para se protegerem. É verdade que em muitos momentos não houve o distanciamento social aconselhado, mas foi positivo ver gente preocupada em proteger-nos da à pandemia.

As manifestações de rua são importantes na luta contra o racismo, mas o que realmente conta é cada um dar o seu contributo para que as coisas melhorem. Sozinhos não conseguimos mudar o mundo, mas vamos movendo uma pedra de cada vez. Hoje sou eu e tu. Se amanhã arranjares um amigo já somos três. E se ele trouxe outro amigo, seremos ainda mais. Isto pode não ter um efeito agora, mas é uma causa que espero que progrida ao longo do tempo. Esperemos que a manifestação faça as coisas mudarem para melhor, porque se for para pior, não fomos ali fazer nada.

Sigam Adilson Monteiro no Instagram.

*Texto editado a 13 Junho 2020, às 13.37h, para melhor reflectir os números de participantes na manifestação.

Previous Dicas para te tornares num aliado na luta contra o racismo
Next A história por trás do maior assassino de homens jovens no Reino Unido