“Here I Am”: memórias visuais das sessões de estúdio de “Illmatic”

Registos de uma era dourada

No ano em que o importante disco de Nas celebra 25 anos, revisitamos uma conversa com Lisa Leone sobre a experiência de documentar através da lente as gravações de um clássico do hip-hop.


F

alar de Illmatic, o disco de estreia do rapper norte-americano Nas, é citar um dos trabalhos mais importantes e representativos da era dourada do hip-hop. Editado em 1995, o álbum é um relato em versos crus e gráficos da vida nos projects de Queensbridge, Nova Iorque, onde Nasir Jones cresceu e se fez adulto. Debaixo das rimas polidas e de métricas complexas, beats soturnos carregados de graves urbanos produzidos por gigantes como Pete Rock, DJ Premier, Large Professor ou Q-Tip amplificam as histórias de gangsters, traficantes e prostitutas daquele gueto nas décadas de 1980 e início dos 90. O retrato vívido de Illmatic é hoje objecto de estudo académico, não apenas pelo conteúdo, mas também pela forma – as rimas de Nas são complexas, refinadas.

Lisa Leone, respeitada fotógrafa e cinematógrafa do Bronx, com uma paixão pela cultura hip-hop, documentou as gravações de estúdio de que resultou Illmatic. Em 2014, os registos integraram a monografia Here I Am, objecto que reúne as memórias visuais e pessoais de Leone sobre as múltiplas vertentes do hip-hop que à época despontavam em Nova Iorque – incluíndo o grafíti e o breakdancing.

Por alturas do lançamento do livro, juntei-me a Leone numa breve e nostálgica conversa sobre as gravações de Illmatic e as transformações do hip-hop desde a eterna Golden Era. Como pretexto dos 25 anos da edição de Illmatic, segue-se uma viagem ao passado à boleia de uma das mais importante fotógrafas da cultura hip-hop.

Conte-nos sobre o que nos mostra Here I Am e as motivações que a levaram a editar a monografia nesta altura.

É um livro sobre a cultura hip-hop do final dos anos 1980, início dos 90 e os seus significados originais. É sobre dança, grafíti, rappers e emcees. Ao longo dos anos, vários amigos que me conhecem daquela época foram perguntando quando pensava editar um livro com as minhas fotos, ao que sempre respondi que ainda não tinha chegado o momento certo. Entretanto, decidi mergulhar nos arquivos, rever os negativos e slides e começar a digitalizá-los e aí apercebi-me como me tinha esquecido de metade daquele material. Nem sequer me recordava que tinha estado presente nas gravações de Illmatic (risos). Fiquei fascinada! Houve pessoas que acabaram por ver os registos, insistindo que tinha chegado o momento. E foi assim que aconteceu.

E agora que reavivou essas memórias, como é que recorda as sessões junto de Nas e produtores como DJ Premier e Q-Tip? O que é que procurava documentar?

Quando vais para um cenário [fotográfico], primeiro queres sentir o ambiente e o que se passa em redor. Tens de te sintonizar e sentir a vibe, só assim podes compreender aquilo que estás a tentar documentar. Tens de ser sensível a isso. Com Illmatic – e podes observá-lo no rosto do [DJ] Premier numa das fotos -, sentia-se o entusiasmo de que algo de extraordinário estava a acontecer, de que estavam à beira de criar algo enorme. Havia também uma sensação de calma, embora a electricidade estivesse no ar. Quando vi aquele rapaz [Nas], pensei que aquilo era intenso, era sério, e era isso que estava a tentar capturar: a atmosfera em torno de algo grande que ali estava a acontecer.

E não esqueças que não havia fotografia digital, e um rolo só tinha trinta e seis negativos. Era necessário um bom discernimento no momento do disparo porque [o processo] era caro e não tinhas contigo quatrocentos rolos. Então era esperar, esperar… disparar! Hoje em dia as pessoas fotografam sem ver nada, simplesmente disparam e disparam e mais tarde procuram o momento durante a edição. É decisivo procurar o momento quando estás imerso no ambiente e não em casa. Era uma forma diferente de fazer as coisas.

Quando vi o Nas no estúdio, pensei que aquilo era intenso, era sério, e era isso que estava a tentar capturar: a atmosfera em torno de algo grande que ali estava a acontecer

E como é que se deu o seu envolvimento com a cultura hip-hop naquela época?

Eu frequentei a High School of Art and Design, que nos anos 80 se chamava High School of Grafiti and Breakdancing. Lendas do grafíti como Mare 139, Kel 1st, MinOne, Fabel estudaram naquela escola, então acabou por ser algo orgânico. Eles eram meus amigos, cresci com eles. Quando o grafiti e o breakdancing expandiram para as galerias, eles diziam, “Vamos numa tour, precisamos de fotografias”. A minha especialização era essa, por isso acabei por ser eu a fotografá-los. Foi tudo muito orgânico, cresci com a cultura

E as fotografias são exclusivas à cultura em Nova Iorque ou também doutros lugares?

As fotografias são maioritariamente de Nova Iorque, mas também há algumas de Los Angeles, como é o caso das que retratam o primeiro vídeo do Snoop [Dogg]. Também estive bastante envolvida com a cidade de Paris. Há fotos do Fab 5 Freddy quando por lá fizemos uma história sobre o hip-hop e ainda das gravações do vídeo do Guru com MC Solaar.

De entre tantos negativos, e tendo em conta o contexto histórico com que hoje revemos a Golden Era, consegue escolher as fotografias que são ainda hoje as mais marcantes para si?

Há diversas por diferentes razões: as imagens do Nas, obviamente, porque acompanharam um álbum incrível; as fotografias do Fab 5 Freddy porque é um bom amigo e porque viajámos pelo mundo em trabalho, o que traz boas memórias. Adoro a fotografia do Big Daddy Kane porque tem uma história engraçada por detrás: estávamos no estúdio e ele só gozava com a minha câmara, perguntava coisas como, “Porque é que estás a disparar tão lentamente”. Respondi que não ia ao estúdio dizer-lhe como fazer o trabalho dele, “por isso relaxa” (risos). Gosto muito da imagem dos Fugees no topo de um telhado. Vês os edifícios como composição de fundo e ainda assim observas cada um dos artistas e as roupas que vestiam. Reflecte muito bem o espírito do iníco dos 90. Cada fotografia é uma história, não dá para escolher uma de entre muitas.

Como é que se desenrolou o processo de curadoria das fotografias para a monografia?

Colaborei com a Michelle Dunn March que trabalhou na Aperture Foundation, por isso não podia pedir mais. Ela estabeleceu recentemente a sua primeira editora independente, a Minor Matters Books. Um dia, em L.A., estivemos cinco horas de volta das fotografias, a seleccionar uma-a-uma. Depois começámos a explorar a estrutura e a partir daí havia mais debates em torno do desenho final. Foi um processo para a frente e para trás, de perceber o que funciona e não funciona. A Michelle não tem muito conhecimento sobre hip-hop, o que tornou [o processo de selecção] interessante para mim porque o feedback dela era puramente fotográfico. Ela escolhia as imagens porque eram fortes, não porque retratavam alguém conhecido. Fiquei muito contente por esta colaboração. Ela discernia o lado fotográfico e eu equilibrava, escolhendo os artistas que apareceriam no livro. Foi por este caminho que seguiu a curadoria.

No hip-hop daquela altura, havia um grande sentido de criatividade e comunidade e um entusiasmo característicos que acho que se perderam

Que contributo gostaria que esta monogafia tivesse para a hip-hop?

Pedi a pessoas como o Fab, Mare, Fabel ou Nas para escreverem sobre as fotos; olharem para as imagens e descreverem aquela época, o que lhes ocupava a mente, porque hoje em dia o hip-hip e toda a máquina desta cultura são um animal diferente. Quero que a nova geração veja o que realmente se passou no início quando a cultura estava numa fase ultra-criativa e com isso talvez incentivá-los a fazer algo novo e diferente. [Hoje em dia] tens algumas coisas underground que são realmente empolgantes, mas eu queria recuperar um tempo que foi autêntico, guiado pela criatividade e comunidade. É essa a premissa do livro.

E como é que observa as transformações na cultura hip-hop ao longo das últimas três décadas?

Hoje em dia já não estou muito ligada ao hip-hop porque está muito diferente, está muito comercial, é todo um outro animal. O que quero mostrar com este livro é que, naquela altura, o hip-hop era sobre comunidade e algo realmente novo. Toda a gente se conhecia e apoiava uns aos outros por exemplo nas gravações de vídeos ou discos – o que certamente ainda acontece de vez em quando. Havia um grande sentido de criatividade e comunidade e um entusiasmo característicos que acho que se perderam porque o hip-hop se tornou noutra versão de música pop.

Uma curiosidade sobre a sua carreira é que, durante um período, Stanley Kubrick foi seu mentor. Como é que se conheceram e passaram a trabalhar juntos?

Através da fotografia entrei na cinematografia. Eu fazia videoclipes e foi por aí que me tornei amiga da filha de Kubrick, Vivian, que trabalhava ao virar da esquina. [Em 1996] ela disse-me que o pai estava a trabalhar num novo filme [De Olhos Bem Fechados] e que precisava de umas pesquisas fotográficas. Não era remunerado, mas pago em rolos. Como favor à Vivian, aceitei, sem convicção de que algo mais saíria dali. Dei-lhe as fotos, ela enviou ao pai e ele disse que aquela foi das melhores pesquisas fotográficas que já tinha visto. Daí fui trabalhar com ele e o que seria para durar umas semanas estendeu-se a quatro anos – apesar de, no primeiro ano, só termos conversado pelo telefone antes mesmo de nos conhecermos pessoalmente.

Kubrick era do Bronx, de onde é originária a minha família, e de imediato se gerou uma linguagem comum. Simplesmente clicámos. Tornámo-nos amigos próximos e eu fui para Londres trabalhar na produção, realizando testes de luz e película. Quando regressei, fiz novo trabalho de pesquisa. Foi incrível. Trabalhar com ele foi como trabalhar num filme de estudantes porque a equipa era muito pequena, por isso estás sempre a aprender. E ele era muito aberto a ensinar se mostrasses empenho. Ele era um miúdo, aquilo era a paixão dele. Ele treinou-me o olho, ensinou-me imenso sobre composição.

Depois de Here I Am, que outros trabalhos estão em agenda para os próximos tempos?

Tenho trabalhado numa outra série de fotografias sobre mulheres artistas e num filme sobre a relação de uma família do Bronx. Também estou a colaborar com uma organização sem fins lucrativos, a The National Young Arts Foundation, oferecendo os meus conhecimento a estudantes de arte do ensino secundário. Tem sido uma excelente e divertida experiência.

Saibam mais sobre Here I Am e Lisa Leone.

Conversa para a HUCK, publicada a 28 de Julho de 2014, e aqui editada para devido contexto temporal.

Previous À descoberta de pérolas reggaeton feminista com Clara!
Next Maximón Monihan: um realizador na correria pelo sonho